"Se nossa intenção for modificar quem realmente somos, não teremos sucesso. Se nossa intenção for nos tornar quem essencialmente somos, não poderemos deixar de ser verdadeiros diante dos mais profundos anseios da nossa alma."
"Matrix, ou a ignorância, é assistir TV, ir ao trabalho, ir a igreja, pagar impostos; uma vida sem questionamentos é uma vida presa à Matrix."
Querida(o) Amiga(o),
A sua vida e tudo que você conhece são uma grande ilusão criada por um big computador chamado Matrix. McDonalds, iPods, Escolas, Igrejas, Praias, Mulheres, Carros Velozes, Sexo, os seus Amigos e a sua Família, Salões de Beleza, CLT, Rede Globo, Internet, Férias etc, não passam de sofisticados programas de computador criados pela Matrix para fazer você levar uma vida sem questionamentos, passivo, distraído, dopado, alienado.
Estamos na verdade no ano de 2.199, e não 2008. Faz duzentos anos que uma grande guerra entre uma avançada tecnologia de inteligência artificial criada pelos homens transformou a raça humana em fonte de energia de computadores. 6 bilhões de pessoas estão aprisionadas em casulos, distribuídos entre grandes plantações de seres humanos. A raça humana não é mais concebida, somos cultivados.
Os seres humanos, aprisionados nos casulos, não demonstram a mínima vontade de acordar porque enquanto conectados a Matrix, são submetidos a sonhos (o mundo atual) que lhes preenche emocionalmente, espiritualmente e intelectualmente. No mundo criado pela Matrix não existe destino, não existe livre arbítrio, não existe amor verdadeiro, tudo é uma grande ilusão.
Afinal, o mundo de sonhos criado pela Matrix é na verdade um grande programa de computador onde tudo está programado para acontecer, tudo foi desenvolvido com o propósito de não ter propósito, tudo é um grande game, a là Age of Empires, bits e bytes, zeros e uns, o indivíduo não controla nada, apesar de ter sempre a ilusão que controla algo, ou é controlado por alguma força espiritual.
Essa é a história por trás da fantástica trilogia de Matrix, filme lançado originalmente em 1999, e que arrebatou imediatamente uma quantidade enorme de fãs (como eu) e críticos ferrenhos às suas idéias espirituais malucas e efeitos especiais exagerados.
Você abandonaria a Matrix se soubesse que fora dela não tem Starbucks?
Você abandonaria a Matrix se soubesse que fora dela não tem Igreja?
Você abandonaria a Matrix se soubesse que fora dela não tem higiene?
Você abandonaria a Matrix se soubesse que fora dela não tem emprego?
É claro que não.
Quem escolheria trocar um mundo confortável e seguro, ainda que controlado por máquinas, para viver trancafiado no centro da Terra, sem Sol e sem Verde, se esgueirando por boeiros e fugindo de rôbos sentinelas como se fosse um inseto de esgoto?
Bem, poucas pessoas, certo?
Todos os dias milhares de pessoas trocam de emprego, largam suas atuais posições e partem para a empresa "Novos Desafios". Elas trocam salários medianos por melhores salários, empregos informais por carteira assinada, chefes imbecis por gerentes profissionais, empresas distantes por firmas locais.
Essas pessoas, que fazem essa troca, realmente estão atrás de "novos desafios", ou estariam atrás de "Novas Seguranças e Comodidades"?
Para mim, a empresa "Novos Desafios" é um lugar onde ganha-se a metade do salário, possui-se a metade dos recursos, tem-se o dobro de responsabilidades, o quáduplo de chances de quebrar, além de dez motivos porque talvez não dê certo. Isso que se chama "Novos Desafios"!
Na próxima vez que você escolher mudar de vida porque o emprego atual não te apresenta maiores desafios, você procurará uma empresa do tipo "Novas Seguranças ou Comodidades" ou a verdadeira "Novos Desafios"?
Você estaria saindo da Matrix ao trocar o marasmo pela segurança?
Você estaria saindo da Matrix ao trocar a complacência pela felicidade?
Eu acredito que não.
Matrix é um filme riquíssimo em referências e dezenas de conceitos filosóficos. Eu poderia escrever um livro chato prá caramba sobre as diferentes leituras que é possível fazer sobre o que aparece no filme. Mas o ponto não é esse. A presença de diferentes referências, a todo momento antagônicas, tem uma única finalidade: te dizer que a realidade não existe, a verdade não existe, e se você quiser optar por ter uma visão mínima da realidade ou verdade, você deve optar por ter uma visão ampla e antagônica das coisas.
O filme alterna entre temas relacionados ao corpo e a mente, o racional e o emocional, o determinismo e a livre escolha, o consumo e o reaproveitamento, a tecnologia e a humanidade, a inteligência artificial e a inteligência humana, o controle e a liberdade, o objetivo e o subjetivo, o arcaico e o moderno.
Durante toda a trilogia, Morfeu e sua trupe têm cabeça para hackear o mainframe da Matrix, construir e viver dentro de uma nave que paira no ar, mas se vestem com roupas arcaicas, atacam com armas comuns, e usam o telefone com disco e fio para entrar na Matrix.
Neo e Trinity, o Escolhido e a Mocinha do filme, lutam contra o racial das máquinas e o pragmatismo de programas de computador durante os três filmes da trilogia, mas é o Amor, de uma maneira inexplicável, que os ajuda a superar as adversidades, inclusive a morte de ambos.
O recado do filme é claro, se você quiser da Matrix, você tem que jogar e conhecer os dois lados de uma mesma moeda, NUNCA se apegar a apenas um único conceito ou filosofia, ouvir o quê vem da direita e o quê vem da esquerda, o quê desce do topo, e o quê sobe para o topo, sabe lidar com a burguesia e a favela, o samba e o rock.
Matrix significa Matriz, e tem relação direta com o conceito de matrizes matemáticas, aquelas tabelas com colunas verticais e linhas horizontais que interagem matematicamente entre si. Hoje, o conceito de matrizes foi além da matemática e é altamente explorado pelas grandes corporations para melhor organizar e distribuir os trabalhos e projetos.
Você já trabalha em uma empresa que tem organização matricial? Não? Não se preocupe, a Matrix vai te achar!
A empresa com organização matricial se dá bem por vários motivos. As decisões rolam mais rápido, o conhecimento se espalha velozmente, o poder desce a ladeira, a organização Matrix desce o porrete no velho e arcaico organograma que emburrece qualquer empresa que teima em continuar utilizando essa invenção de Napoleão Bonaparte; na empresa matricial diferentes pessoas de diferentes locais passam a participar de projetos que antes não poderiam participar porque não se reportavam a determinada pessoa.
Por outro lado, o funcionário passa a ter vários chefes, e se tiver uma cabecinha limitada, fica perdido sobre quem é o seu verdadeiro chefe, quem deveria olhar pelo seu futuro, quem deveria fazer avaliação sobre o seu trabalho etc etc etc; os chefes, por sua vez, também entram em conflito sobre qual é o melhor uso a se fazer sobre determinado cidadão que ambos utilizam.
A Matrix prova-se uma coisa boa, mas prova-se também uma coisa ruim. Você tem sempre duas escolhas a sua frente, a pílula vermelha e a pílula azul. Prove dos dois remédios. Se decidir continuar na Matrix, não tem problema, boa sorte, é uma escolha de vida, talvez nem todos sejam como o Neo do filme, cheios de fibra, coragem e auto estima para lidar com a "Novos Desafios". Se decidir sair da Matrix, boa sorte, ninguém vai conseguir te dizer como a coisa vai terminar, apenas como vai começar. Um mundo sem regras, sem fronteiras, sem controle, sem limites; um mundo onde tudo é possível. Onde você vai chegar? Você escolhe. O tempo todo.
Neo, o escolhido, não se vê inicialmente como o messias da história. Morfeu e Trinity acreditam em Neo muito mais do que ele mesmo acredita em si. Entretanto, uma pequena vitória aqui e outra ali são o suficiente para enchê-lo de confiança. Neo termina o primeiro filme destruindo Smith, o super agente da Matrix, e voando como o super homem e o messias que é.
A história poderia morrer aí. Neo vence os agentes da Matrix, ponto final.
Mas não, o melhor que Matrix tem a ensinar ainda está por vir. Inspirado por Neo, Smith renasce Livre e Desobediente. Smith diz, "Depois de lutar com você, eu sabia o que tinha que fazer, mas eu não fiz. Eu fui compelido por você a desobedecer a Matrix. Você me inspirou a ser livre. Hoje eu não sou mais um agente da Matrix. Eu sou livre. Mas por quê eu sou livre? Antes, como máquina, eu tinha um propósito, agora como um ser livre eu não tenho. Neo, qual é o meu propósito?"
E eis que surge o ensinamento supremo da trilogia, "Máquinas precisam de propósito para funcionar, Máquinas acreditam em destino, Máquinas acreditam em um controlador geral da nação que conecta todas as coisas, nada poderia funcionar por acaso; Seres Humanos Livres não precisam de propósito para funcionar, nem amor, nem dinheiro, nem fama, nem nada, Seres Humanos Livres acreditam que fazer alguma coisa esperando outra como recompensa é errado, as pessoas deveriam fazer as coisas por livre escolha, sem propósito, sem segundas intenções, se houver um propósito por trás, a ação deixa de ser verdadeira, deixa de ser humana, torna-se máquina. "
A atitude livre de Neo enlouquece Smith que não consegue compreender como alguém pode funcionar sem um propósito.
Máquinas funcionam com propósito, e Seres Humanos sem propósito!?
Existe uma entidade desconhecida que distorce e alonga textos de autores pouco conhecidos e cola o nome de escritores mais conhecidos, para dar credibilidade. O texto "Você aprende" é atribuído a Shakespeare, faz muito tempo. Eu achava o ultimo parágrafo um tanto esquisito e uma referência a alice no pais das maravilhas, um texto posterior a ele. E o formato é muito auto-ajuda.
Depois de um questionamento de uma amiga, fui pesquisar e descobri que se trata de mais um texto de autoria e conteúdo alterados. Veronica Shoffstall ("After a While", ou "Depois de um Tempo"), de 1971. Também conhecido por "Comes the Dawn". Agradecimentos ao blog-oasis "Autor Desconhecido", dedicado à nobre tarefa de expor essas atrocidades literárias.
O poema original: After a while
After a while you learn the subtle difference between holding a hand and chaining a soul and you learn that love doesn't mean leaning and company doesn't always mean security. And you begin to learn that kisses aren't contracts and presents aren't promises and you begin to accept your defeats with your head up and your eyes ahead with the grace of woman, not the grief of a child and you learn to build all your roads on today because tomorrow's ground is too uncertain for plans and futures have a way of falling down in mid-flight. After a while you learn that even sunshine burns if you get too much so you plant your own garden and decorate your own soul instead of waiting for someone to bring you flowers. And you learn that you really can endure you really are strong you really do have worth and you learn and you learn with every goodbye, you learn.
A minha tradução:
"Depois de algum tempo você aprende a sutil diferença entre segurar a mão e acorrentar a alma E você aprende que amar não significa apoiar-se e que companhia nem sempre significa segurança. e você começa a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas. e começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante com a graça de uma mulher e não com a tristeza de uma criança. e você aprende construir todas as suas estradas no hoje porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em pleno vôo. Depois de um tempo você aprende que mesmo a luz do sol queima se você se expor demais. então plante seu jardim e enfeite sua alma ao invés de esperar que alguem lhe traga flores. E você aprende que você realmente pode perseverar, você realmente é forte você realmente tem valor e você aprende e você aprende A cada despedida, você aprende."
Desejo primeiro que você ame, E que amando, também seja amado. E que se não for, seja breve em esquecer. E que esquecendo, não guarde mágoa. Desejo, pois, que não seja assim, Mas se for, saiba ser sem desesperar. Desejo também que tenha amigos, Que mesmo maus e inconseqüentes, Sejam corajosos e fiéis, E que pelo menos num deles Você possa confiar sem duvidar. E porque a vida é assim, Desejo ainda que você tenha inimigos. Nem muitos, nem poucos, Mas na medida exata para que, algumas vezes, Você se interpele a respeito De suas próprias certezas. E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo, Para que você não se sinta demasiado seguro. Desejo depois que você seja útil, Mas não insubstituível. E que nos maus momentos, Quando não restar mais nada, Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé. Desejo ainda que você seja tolerante, Não com os que erram pouco, porque isso é fácil, Mas com os que erram muito e irremediavelmente, E que fazendo bom uso dessa tolerância, Você sirva de exemplo aos outros. Desejo que você, sendo jovem, Não amadureça depressa demais, E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer E que sendo velho, não se dedique ao desespero. Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e É preciso deixar que eles escorram por entre nós. Desejo por sinal que você seja triste, Não o ano todo, mas apenas um dia. Mas que nesse dia descubra Que o riso diário é bom, O riso habitual é insosso e o riso constante é insano. Com o máximo de urgência, Desejo que você descubra, Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos, Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta. Desejo ainda que você afague um gato, Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro Erguer triunfante o seu canto matinal Porque, assim, você se sentirá bem por nada. Desejo também que você plante uma semente, Por mais minúscula que seja, E acompanhe o seu crescimento, Para que você saiba de quantas Muitas vidas é feita uma árvore. Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro, Porque é preciso ser prático. E que pelo menos uma vez por ano Coloque um pouco dele Na sua frente a diga "Isso é meu", Só para que fique bem claro quem é o dono de quem. Desejo também que nenhum de seus afetos morra, Por ele e por você, Mas que se morrer, você possa chorar Sem se lamentar e sofrer sem se culpar. Desejo por fim que você sendo homem, Tenha uma boa mulher, E que sendo mulher, Tenha um bom homem E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes, E quando estiverem exaustos e sorridentes, Ainda haja amor para recomeçar. E se tudo isso acontecer, Não tenho mais nada a te desejar.
Dizem que para o amor chegar não há dia, não há hora nem momento marcado para acontecer. Ele vem de repente e se instala no mais sensível dos nossos órgãos, o coração. Começo a acreditar que sim. Mas percebo também que pelo fato deste momento não ser determinado pelas pessoas, quando chega, quase sempre os sintomas são arrebatadores. Vira tudo às avessas e a bagunça feliz se faz instalada.
Quando duas almas se encontram o que realça primeiro não é a aparência física, mas a semelhança d'almas. Elas se compreendem e sentem falta uma da outra. Se entristecem por não terem se encontrado antes, afinal tudo poderia ser tão diferente. No entanto sabem que o caminho é este e que não haverá retorno para as suas pretensões.
É como se elas falassem além das palavras, entendessem a tristeza do outro, a alegria, o desejo, mesmo estando em lugares diferentes. Quando almas afins se entrelaçam passam a sentir saudade uma da outra num processo contínuo de reaproximação até a consumação.
Almas que se encontram podem sofrer bastante também, pois muitas vezes tais encontros acontecem em momentos onde não mais podem extravasar toda a plenitude do amor que carregam, toda a alegria de amar e querer compartilhar a vida com o outro, toda a emoção contida à espera do encontro fatal.
Desejam coisas que se tornam quase impossíveis, mas que são tão simples de viver. Como ver o pôr-do-sol, caminhar por uma estrada com lindas árvores, ver a noite chegar, ir ao cinema e comer pipocas, rir e brincar, brigar às vezes, mas fazer as pazes com um jeitinho muito especial. Amar e amar, muitas vezes sabendo que logo depois poderão estar juntas de novo sem que a despedida se faça presente.
Porém muitas vezes elas se encontram em um tempo e em um espaço diferentes do que suas realidades possam permitir. Mas depois que se encontram ficam marcadas, tatuadas e ainda que nunca venham a caminhar para sempre juntas, elas jamais conseguirão se separar. E o mais importante: terão de se encontrar em algum lugar. Almas que se encontram jamais se sentirão sozinhas porquanto entenderão, por si só, a infinita necessidade que têm uma da outra para toda a eternidade.
Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem acabei. De tanto ser, só tenho alma. Quem tem alma não tem calma. Quem vê é só o que vê, Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo, Torno-me eles e não eu. Cada meu sonho ou desejo É do que nasce e não meu. Sou minha própria paisagem; Assisto à minha passagem, Diverso, móbil e só, Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo Como páginas, meu ser. O que segue não prevendo, O que passou a esquecer. Noto à margem do que li O que julguei que senti. Releio e digo : "Fui eu ?" Deus sabe, porque o escreveu.
Você deve ter passado a vida inteira ouvindo a expressão: tempo é dinheiro. Como se cada segundo desperdiçado equivalesse a moedas indo pelo espaço. Também deve ter escutado aos montes sobre a sociedade materialista e seus supostos males à humanidade. Agora, suponhamos que tudo isso virasse de cabeça para baixo. Dinheiro é tempo o tempo que você gasta para ganhá-lo. E materialismo pode ser bom desde que você entenda como materialista aquela pessoa que valoriza tanto os bens materiais, mas tanto mesmo, que aproveita tudo o que pode deles, e, por isso mesmo, não precisa de muito para se satisfazer. Essas remexidas em velhos conceitos são algumas das propostas da simplicidade voluntária, um estilo de vida que passou a se propagar nos Estados Unidos nos anos 70, em resposta à sociedade de consumo, ganhou ecos em países como Canadá e França e, devagarzinho, chega ao Brasil. Pesquisas estimam que, nos Estados Unidos, cerca de 20 milhões de pessoas, 10% da população, estejam optando por uma vida materialmente mais comedida, pautada na convivência com a família, os amigos e a comunidade e no respeito à natureza, no sentido de fazer o máximo para preservar seus recursos. Uma maneira de viver que é exteriormente mais simples e interiormente mais rica, diz o escritor norteamericano Duane Elgin em seu livro Simplicidade Voluntária. O título do livro, lançado em 1981, deu nome a essa forma de viver.
A expressão simplicidade voluntária deixa claro que ter uma vida mais simples é questão de escolha, de estarmos mais conscientes do que queremos, de quais são os propósitos da nossa vida. E esclarece: não se deve confundir simplicidade com pobreza. Simplicidade é escolha, pobreza não. Simplicidade tampouco tem a ver com negar a tecnologia afinal, ela é muito útil. E muito menos significa mudar-se para uma cabana na floresta. A idéia é simplificar a vida onde se está, com o que se tem - e a maior parte das pessoas que já fazem isso vive nas cidades.
Dinheiro é tempo
Paulo Roberto trabalhava no mercado financeiro. Tinha um bom salário, boas perspectivas na carreira, freqüentava restaurantes e festas. Mas comecei a pensar que essas coisas não valiam o esforço que eu tinha que fazer para tê-las: muitas horas no trabalho, afastado de família, dos relacionamentos afetivos. Não traziam um benefício que justificasse esse sacrifício todo, diz. Pediu demissão, virou professor universitário, mudou-se para um lugar menor e está mais satisfeito.
Além do tempo e da energia investidos para ganhar o dinheiro necessário para comprar bens, também é preciso mantê-los. Se uma pessoa tem uma casa na cidade, outra na praia e uma terceira no campo, precisa cuidar da manutenção. Se tem dois carros em vez de um, vai ao mecânico o dobro de vezes. Você fica ali, ticando coisas numa lista, em vez de estar tomando um café com um amigo. Existem pessoas que parecem viver para resolver os problemas dos bens materiais que têm, diz Paulo Roberto. Por isso, vale a reflexão: o quanto o tempo e a energia investidos para a aquisição de coisas podem minguar as oportunidades de conviver com as pessoas, de buscar a espiritualidade, o autoconhecimento e o senso de comunidade?
O que Paulo Roberto fez, mesmo sem saber, foi o que a escritora Vicki Robin, uma das precursoras da simplicidade voluntária nos EUA, recomenda: tenha uma relação mais pessoal com o dinheiro. Ele é sua energia vital. Você paga pelo dinheiro com seu tempo, afirma Vicki. Quando você gasta dinheiro, não está gastando um papel emitido pelo governo, mas as horas que você investiu em seu trabalho. E, porque você se ama e se respeita, é melhor gastar o dinheiro com coisas que tenham valor para você, diz. Vicki propõe que as pessoas se questionem: aquilo que possuo ou compro promove a atividade, a autoconfiança e o envolvimento ou induz à passividade e à dependência? Até que ponto meu trabalho e meu estilo de vida atuais estão apenas vinculados ao pagamento de prestações, à manutenção das coisas, às despesas com consertos e à expectativa de outras pessoas? Levo em consideração o impacto de meus padrões de consumo sobre outras pessoas e sobre o planeta?
O bom materialista
Um homem é rico na proporção do número de coisas de que pode prescindir, afirma o filósofo americano Henry David Thoreau em seu livro Walden Ou a Vida nos Bosques. A verdadeira riqueza não estaria nos bens materiais, mas sim na qualidade das relações consigo mesmo e com os outros. O consumo em excesso poderia, então, ser um sintoma do vazio em outras áreas da vida, uma forma de compensação. Se essas áreas forem preenchidas, naturalmente, o consumismo decresce. E esse seria o primeiro passo para, quem diria, ser um bom materialista. As pessoas que consomem excessivamente têm baixo materialismo: compram um computador, mal o aproveitam e já querem outro, afirma Vicki Robin. O bom materialista é aquele que tira o proveito máximo dos bens materiais. Se você tem uma coisa, use-a muito, até acabar, diz.
É o que faz a fotógrafa Elaine Cimino. Em sua casa, há uma centenária cadeira de balanço sua avó Anita costumava sentar-se aos pés do móvel para acompanhar o pai na leitura do jornal. E também a cômoda da avó Tarsila, a mesa da antiga rotisserie da mãe, os lustres do primeiro apartamento dos pais, e tantos outros móveis da família. Há algum tempo, Elaine reformou a casa toda, usando praticamente apenas material de demolição. Sinto-me honrando esses materiais e a história deles, diz. Se Vicki Robin conhecesse Elaine, provavelmente diria que ela é uma pessoa frugal. Para a escritora, o verdadeiro significado da palavra frugalidade é aproveitar tudinho que se pode de cada coisa e de cada momento da vida. Até as ações mais simples, como chupar um picolé, desfrutando a cor, a textura, os aromas da doçura. E, com coisas demais, fica difícil dar essa atenção toda a cada uma.
Ponto de suficiência
Simplicidade significa eliminar distrações triviais, tanto materiais como imateriais, e focar no essencial o que quer que isso signifique para cada um, afirma Duane Elgin. É aí que está o pulo do gato, a chavinha de ouro. Mas como é difícil decidir o que é essencial! O pior é que, como diz Jorge Mello, um dos maiores divulgadores da simplicidade voluntária no Brasil, essa constatação não é transferível.
Mas, calma, existem alguns caminhos. Vamos começar pelas necessidades básicas. Do que você precisa para viver com dignidade e certo conforto? Casa, roupa, comida, saúde, educação e acesso à cultura certamente estarão na lista. Se essas necessidades estiverem supridas, do que mais você não abriria mão? O Jorge, por exemplo, de presentear pessoas. O Paulo Roberto, de almoçar ao menos uma vez por semana em um restaurante vegetariano de Niterói considerado caro. É essencial para mim, para meu corpo, estar bem, para eu me sentir satisfeito, saciado, diz. São os pequenos luxos a que todos nós temos direitos e que fazem a vida ficar muito melhor.
Em seu livro Dinheiro e Vida, Vicki Robin apresenta um gráfico que relaciona satisfação e dinheiro despendido. O gráfico faz uma curva ascendente, passando pelas necessidades básicas, algum conforto e pequenos luxos (sem exageros), até chegar ao ponto de suficiência quando os luxos passam dos limites, a curva começa a descer, pois a relação entre dinheiro e satisfação já não vale a pena. O ponto de suficiência seria o ideal para quem quer ter uma vida simples, mas longe da privação ou do sofrimento pois isso não tem nada a ver com simplicidade.
Quando aluno de Gandhi, Richard Gregg, o primeiro a falar em simplicidade voluntária, ainda em 1936, disse ao mestre que era fácil para ele abrir mão de muitas coisas, mas que queria manter seus vários livros. Gandhi respondeu: Então, não abra mão deles. Enquanto você obtiver ajuda interior e conforto de qualquer coisa, você deve conservá-la. Se você abrir mão dela num ato de austeridade e sacrifício, continuará querendo-a de volta e esse querer insatisfeito lhe trará problemas. Por isso, não tente eliminar nada de sua vida arbitrariamente. Faça uma lista com os itens que o levariam ao ponto de suficiência, nem mais nem menos. Antes de eliminar qualquer coisa, teste. Será que preciso mesmo do forninho e do microondas? Fique uma semana sem usar um deles e veja o que acontece. Você pode ter boas surpresas.
O arquiteto Max Gosslar teve um carro por três anos. Depois que se mudou para uma região mais central de São Paulo, passou a usar mais o transporte público e vendeu o veículo. Não vou dizer que não reclamo, faz falta, principalmente à noite e nos fins de semana. Mas, em termos financeiros, não valia. Daria um gasto médio de 700 reais por mês, diz Max. Nesse caso, a satisfação não era proporcional ao dinheiro despendido. Bárbara Monteiro sempre usou a bicicleta e, raramente, ônibus e metrô como transporte. Foram 35 anos indo para o trabalho e a faculdade de magrela até que... Comprei um carro na semana passada, nem sei como vai ser quando ele chegar, disse. Bárbara adora viajar nos fins de semana, pois tem necessidade de estar em contato com a natureza. Mas apertava o coração deixar o cachorro e o gato para trás. Queria levá-los, mas era sempre a saia justa de colocar os bichos no carro dos amigos e no ônibus não era nem permitido.
Moral da história: as necessidades mudam porque as pessoas mudam e os contextos mudam. Então, a pergunta a se fazer é: o que é essencial para este singular que sou (não para meu vizinho ou para meu chefe) na minha vida atual? Coloque-se esta questão constantemente e faça as adaptações necessárias. O ponto de suficiência não é estático, é mutante. Existe um critério, mas esse critério é vivo, diz Jorge Mello.
Contei meus anos e descobri que provavelmente terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora.
Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras ele chupou displicentemente, mas, ao perceber que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral ou coisa e tal.
Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: "As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos".
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana: que sabe rir de seus tropeços; que não se encanta só com triunfos; que não se considera eleita antes da hora; que não foge de sua mortalidade; que defende a dignidade dos marginalizados; que deseja tão somente andar ao lado de Deus. Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade e desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.
O essencial faz a vida valer a pena - basta o essencial !
No Tribunal Distrital dos Estados Unidos, Distrito do Sudoeste, Tempe, Arizona Caso: no B19294, Juíza: Joan Kujava Wile E. Coyote [ Autor] vs. ACME Company [Ré]
Declaração inicial do dr. Harold Schoff, advogado do sr. Coyote: meu cliente, o sr. Wile E. Coyote, residente no Arizona e estados contíguos, vem por meio desta propor ação indenizatória para reparação de perdas e danos contra a Acme Company, fabricante e distribuidora no varejo de mercadorias variadas, fundada no Delaware e ativa em todos estados, distritos e territórios dos Estados Unidos da América. O sr. Coyote pretende compensação por danos materiais e estéticos, lucros cessantes e perturbações mentais, diretamente produzidos por atos e/ou negligência grosseira da companhia citada, nos termos do Título 15 do Código Civil Americano, capítulo 47, seção 2.072, subseção (a), que define a responsabilidade do fabricante por seus produtos.
O sr. Coyote afirma que, em oitenta e cinco ocasiões distintas, adquiriu da Acme Company (doravante referida apenas como “Ré”), através do Departamento de Reembolso Postal da empresa, certos produtos que lhe causaram as lesões físicas mais diversas em decorrência de defeitos de fabricação ou da falta de advertências claras ao consumidor estampadas nas respectivas embalagens. Os recibos de venda em nome do sr. Coyote, apresentados como prova de compra, foram devidamente encaminhados ao Tribunal e rotulados como Prova a. As lesões supra sofridas pelo sr. Coyote resultaram na restrição temporária de sua capacidade de sustentar-se com seu ofício de predador. O sr. Coyote é autônomo e, portanto, não faz jus ao Auxílio-Desemprego por Invalidez.
O sr. Coyote afirma que, no dia 13 de dezembro, recebeu a entrega postal de um Trenó a Jato da Acme. A intenção do sr. Coyote era utilizar o referido Trenó a Jato para ajudá-lo na perseguição e captura da sua presa. Ao receber o Trenó a Jato, o sr. Coyote na mesma hora removeu o produto da embalagem de madeira e, avistando sua presa ao longe, ativou a ignição. Quando pôs suas mãos no local indicado e cuidou de segurar firme o veículo, este acelerou com uma força tamanha e tão repentina que esticou os membros anteriores do sr. Coyote a uma extensão de quinze metros. Em seguida, o restante do corpo do sr. Coyote foi puxado para a frente com um repelão violento, o que submeteu suas costas e seu pescoço a um esforço extremo de tração e resultou no seu inesperado deslocamento para bordo do referido veículo. Desaparecendo no horizonte tão depressa que só deixou para trás uma diminuta nuvem de fumaça, graças ao Trenó a Jato o sr. Coyote logo emparelhou com a sua presa. Nesse exato momento, contudo, o animal perseguido descreveu uma curva brusca e inesperada para a direita. O sr. Coyote fez o possível para acompanhar a manobra mas não conseguiu, por culpa do projeto inadequado do sistema de direção do Trenó a Jato - para não falar de seu dispositivo de frenagem, defeituoso ou mesmo inexistente. Pouco depois, o avanço contínuo e incontrolável do Trenó a Jato levaria tanto o veículo quanto o sr. Coyote a uma colisão frontal com a borda de um precipício.
O primeiro parágrafo do Laudo Médico (Prova B) preparado pelo dr. Ernest Grosscup, devidamente credenciado como perito médico judicial, descreve as múltiplas fraturas, lacerações e lesões corporais sofridas pelo sr. Coyote em decorrência da colisão acima referida. O tratamento demandou a aplicação de uma bandagem completa de atadura a toda volta do crânio (com a exceção das orelhas), a adoção de um suporte ortopédico especial para o pescoço e o uso de aparelhos de gesso completos ou parciais em todas as quatro patas.
Com os movimentos tão tolhidos por todo esse aparato terapêutico, o sr. Coyote ainda assim se via obrigado a prover seu sustento e, com tal finalidade, adquiriu da Ré, como forma de auxílio à sua locomoção, um par de Patins a Jato Acme. Todavia, ao tentar empregar o referido produto, envolveu-se num acidente notavelmente similar ao ocorrido com o Trenó a Jato. Aqui, a Ré reincidiu na venda direta pelo reembolso postal, sem dar-se ao cuidado de qualquer advertência ao consumidor, de um produto em que usa potentes motores a jato (dois, no caso em pauta) na propulsão de veículos inadequados para tal, marcados pela insuficiência ou mesmo a ausência completa dos devidos dispositivos de segurança para o passageiro. Prejudicado pelo peso de seus aparelhos de gesso, o sr. Coyote perdeu o controle dos Patins a Jato logo depois de prendê-los aos pés, colidindo tão violentamente com um cartaz de beira de estrada que nele produziu um recorte na forma de sua silhueta completa.
O sr. Coyote afirma ainda que, em ocasiões numerosas demais para detalhar no presente requerimento, sofreu os mais variados infortúnios com explosivos adquiridos à Ré: o Buscapé “Gigantinho” Acme, a Bomba Aérea Auto- Guiada Acme, etc. (Para uma relação completa, ver o Catálogo Acme de Explosivos pelo Reembolso Postal e o depoimento do queixoso sobre esse aspecto da questão, anexados ao Processo como Prova C.) De fato, é possível afirmar com toda a segurança que nenhum dos explosivos adquiridos da Ré pelo sr. Coyote jamais exibiu o desempenho que dele se esperava. Para citar apenas um exemplo: à custa de muito tempo e intenso esforço pessoal, o sr. Coyote construiu, ao longo da orla externa de uma elevação isolada, uma calha inclinada de madeira que começava no alto da referida elevação e ia descendo em espiral, descrevendo voltas em seu redor, até poucos metros acima de um x preto pintado no chão do deserto. A calha inclinada foi construída de tal maneira que um explosivo esférico do tipo vendido pela Ré pudesse descer rolando rápido e facilmente por ela até o ponto de detonação, indicado pelo X. O sr. Coyote cobriu o x com uma generosa pilha de alimento para aves, e então, carregando a Bomba Acme Esférica (número 78-832 do Catálogo), subiu até o alto da supracitada elevação. A presa do sr. Coyote, ao ver a pilha de alimento, aproximou-se, ao que o sr. Coyote acendeu o pavio do engenho explosivo Numa fração de segundo, porém, o pavio queimou até o fim, provocando a detonação da bomba.
Além de anular todo o meticuloso esforço construtivo do sr. Coyote, a detonação prematura do produto da Ré resultou nos seguintes danos estéticos ao sr. Coyote:
1. Chamuscamento grave dos pêlos da cabeça, do pescoço e do focinho;
2. Empretecimento facial pela fuligem;
3. Fratura da orelha esquerda na base, causando o tombamento do dito apêndice, logo em seguida à detonação, com um rangido claramente audível;
4. Combustão total ou parcial dos bigodes, produzindo seu enroscamento, desmanche no ar e desintegração em cinzas;
5. Arregalamento radical dos olhos, devido ao calcinamento das pálpebras e sobrancelhas.
E tratemos agora dos Calçados a Mola Acme. Os vestígios de um par do referido produto adquirido pelo sr. Coyote no dia 23 de junho constituem a Prova d encaminhada pelo Autor da presente ação a esta Corte. Alguns fragmentos foram encaminhados para a devida análise ao Laboratório de Metalurgia da Universidade da Califórnia, em Santa Barbara, onde até hoje, todavia, não foi encontrada qualquer explicação para o súbito e radical mau funcionamento do produto. No anúncio da Ré, os referidos Calçados a Mola são de extrema simplicidade: duas sandálias de madeira e metal, cada uma delas presa a uma mola de aço forjado de alto poder tensiométrico, mantida em posição de grande compressão por um mecanismo cujo desarme pode ser comandado por um gatilho de cordão. O sr. Coyote julgava que tal aparato teria como capacitá-lo a capturar sua presa com curtíssimo tempo de perseguição, num momento inicial da caça em que os reflexos rápidos são fator decisivo.
A fim de aumentar ainda mais a força propulsora dos referidos calçados, o sr. Coyote prendeu-os pela sola à face lateral de um volumoso rochedo. Em posição adjacente a este rochedo, ficava um caminho que a presa do sr. Coyote costumava percorrer regularmente. O sr. Coyote calçou suas patas traseiras nas sandálias de madeira e metal e agachouse em preparação, segurando com firmeza o cordão de disparo em sua pata dianteira direita. Dali a pouco tempo, a presa do sr. Coyote de fato apareceu no caminho, rumando em sua direção. Sem desconfiar de nada, deteve-se muito perto do sr. Coyote, claramente ao alcance da extensão total das molas. O sr. Coyote avaliou a distância com todo o cuidado e puxou o cordão.
A essa altura, o produto da Ré deveria ter impelido o sr. Coyote para diante e para longe do rochedo. Ao invés disso, contudo, por razões desconhecidas, os Calçados a Mola Acme empurraram o rochedo para longe do sr. Coyote. Enquanto a presa visada assistia incólume, o sr. Coyote ficou imóvel por alguns instantes, suspenso em pleno ar. Em seguida, foi puxado com toda a força pelo retrocesso das molas, o que provocou uma violenta colisão de seus pés com o rochedo em que todo o peso da cabeça e de seus quartos anteriores recaiu sobre suas extremidades posteriores.
A força desse impacto, por sua vez, determinou uma nova extensão das molas, em virtude da qual o sr. Coyote viuse impelido dessa vez verticalmente para o alto. O que foi acompanhado de um segundo retrocesso e uma segunda colisão. Nesse ínterim, o rochedo supracitado, de forma aproximadamente ovóide, começara a rolar aos solavancos encosta abaixo com uma velocidade crescente, aumentada pelos sucessivos vaivéns da mola. A cada retrocesso, o sr. Coyote se chocava com o rochedo, ou o rochedo se chocava com o sr. Coyote, ou os dois se chocavam com o solo. Uma vez que o declive era bastante longo, tal processo se estendeu por um tempo considerável.
A seqüência dessas colisões resultou numa série de lesões físicas de ordem sistêmica ao sr. Coyote, a saber: achatamento dos ossos cranianos, destroncamento lateral da língua, redução do comprimento das pernas e do torso e compressão geral das vértebras, da base da cauda até a cabeça. A ocorrência desses choques repetidos ao longo do eixo vertical produziu uma série de dobramentos horizontais regulares nos tecidos corporais do sr. Coyote - condição rara e extremamente dolorosa em virtude da qual o sr. Coyote passou a expandir-se e contrair-se alternadamente no comprimento quando andava, emitindo um desafinado som de acordeão a cada passo. A natureza altamente perturbadora e embaraçosa desse sintoma acabou por constituir-se, para o sr. Coyote, em importante empecilho para uma vida normal em sociedade.
Como este Tribunal deve saber, a Ré detém o monopólio virtual da manufatura e da distribuição das mercadorias necessárias ao trabalho do sr. Coyote. Afirmamos que a Ré abusa de sua posição privilegiada no mercado, em detrimento do consumidor de seus produtos especializados como o pó-de-mico, as pipas de papel tamanho gigante, as armadilhas para tigre birmanês, a bigorna e os elásticos de borracha de cinqüenta metros de comprimento. Por mais que tivesse perdido a confiança nos produtos da Ré, não existia outra fonte de suprimento a domicílio à qual o sr. Coyote pudesse recorrer. Só podemos tentar imaginar o que nossos parceiros comerciais da Europa Ocidental e do Japão iriam pensar de situação semelhante, na qual se permite que uma empresa gigantesca vitime seu consumidor vezes sem conta, da maneira mais descuidada e malévola que se possa conceber.
O sr. Coyote vem requerer, com todo respeito, que este Tribunal considere essas implicações econômicas mais amplas e obrigue a Ré ao pagamento de danos punitivos no montante de dezessete milhões de dólares. Ademais, o sr. Coyote pede reparação de danos materiais (refeições perdidas, despesas médicas, dias indisponíveis para sua ocupação profissional) no valor de um milhão de dólares; e de danos morais (sofrimento mental, perda de prestígio) no valor de vinte milhões de dólares; além de honorários advocatícios no valor de setecentos e cinqüenta mil dólares. Pedido total: trinta e oito milhões, setecentos e cinqüenta mil dólares. Concedendo ao sr. Coyote o montante requerido, este Tribunal irá penalizar a Ré, seus diretores, funcionários, acionistas, sucessores e procuradores, na única linguagem por eles compreendida, reafirmando o direito individual do predador à proteção eqüitativa da lei.
Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar.
Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.
Escutar é complicado e sutil. Diz Alberto Caeiro que "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma". Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.
Parafraseio o Alberto Caeiro: "Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma". Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.
Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.
Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...
Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, [...]. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas.). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem.
Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades. Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado". Segunda: "Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou". Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.
O longo silêncio quer dizer: "Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou". E assim vai a reunião. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.
Eu comecei a ouvir.
Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.
A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia e que de tão linda nos faz chorar.
Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.
Desiderata Do Latim 'desideratu': aquilo que se deseja; aspiração - texto encontrado na velha igreja de Saint Paul, Baltimore, datado de 1692.
Vá placidamente entre o barulho e a pressa e lembre-se da paz que pode haver no silêncio.
Tanto quanto possível, sem capitular, esteja de bem com todas as pessoas.
Fale a sua verdade calma e claramente; e escute os outros, mesmo os estúpidos e ignorantes; também eles têm a sua história.
Evite pessoas barulhentas e agressivas. Elas são tormento para o espírito.
Se você se comparar a outros, pode tornar-se vaidoso e amargo; porque sempre haverá pessoas superiores e inferiores a você.
Desfrute suas conquistas assim como seus planos.
Mantenha-se interessado em sua própria carreira, mesmo que humilde; é o que realmente se possui na sorte incerta dos tempos.
Exercite a cautela nos negócios; porque o mundo é cheio de artifícios.
Mas não deixe que isso o torne cego à virtude que existe; muitas pessoas lutam por altos ideais; e por toda parte a vida é cheia de heroísmo.
Seja você mesmo. Principalmente não finja afeição, nem seja cínico sobre o amor; porque em face de toda aridez e desencantamento ele é perene como a grama.
Aceite gentilmente o conselho dos anos, renunciando com benevolência às coisas da juventude.
Cultive a força do espírito para proteger-se num infortúnio inesperado. Mas não se desgaste com temores imaginários. Muitos medos nascem da fadiga e da solidão.
Acima de uma benéfica disciplina, seja bondoso consigo mesmo. Você é filho do universo, não menos que as árvores e as estrelas.
Você tem o direito de estar aqui. E, quer seja claro ou não para você, sem dúvida o universo se desenrola como deveria. Portanto, esteja em paz com Deus, qualquer que seja sua forma de concebê-lo e seja qual for a sua lida e as suas aspirações, na barulhenta confusão da vida, mantenha-se em paz com a sua alma.
Com todos os enganos, penas e sonhos desfeitos, este é ainda um mundo maravilhoso. Esteja atento. Empenhe-se em ser feliz.
Eu tenho ouvido toda a minha vida Uma voz chamando meu nome que eu reconhecia como minha propria voz.
Às vezes ela vem como um suave sussurro. Às vezes com uma ponta de urgência.
Mas sempre diz: Acorde, meu amor, você está caminhando adormecido. Não á segurança nisto!
Lembre-se do que você é e deixe este conhecimento levar você para casa e para a Divindade¹ a cada respiração.
Abrace carinhosamente quem você é e deixe um conhecimento mais profundo colorir a forma de sua humanidade.
Não há para onde ir. O que você procura está aqui. Abra o punho cerrado no querer e veja o que você já segura em sua mão.
Não há espera para algo acontecer, nenhum ponto no fururo para onde ir. Tudo que você sempre esperou está aqui neste momento, agora.
Você está desgastando a si mesmo com toda esta busca. Venha para casa e descanse.
O quanto mais você pode viver assim? Seu espirito magro está exausto, seu coração tropeça. Todo este tentar. Desista!
Deixe você ser um Deus-Louco, com fé apenas na Beleza que é você.
Deixe que a Divindade¹ te deixe de pé e te abrace, dançando mesmo quando o medo te pressiona a ficar sentado durante esta música.
Lembre-se há uma palavra que você está aqui para pronunciar com seu ser inteiro. Quando ela o encontrar, dê sua vida a ela. Não contenha seus lábios.
Dedique-se completamente a este dizer. Seja uma palavra no grande poema de amor que estamos escrevendo juntos.
Oriah Mountain Dreamer.
(Tradução minha, com alguns escorregões, provavelmente)
¹ - Oriah usa o termo Beloved várias vezes para se referir à Divindade, a Deus, à Deusa, ao insondável mistério que ao mesmo tempo somos nós e é maior que nós.
Eu lhe mandei meu convite, a nota inscrita na palma da minha mão pela chama da vida. Não dê um salto gritando: "Sim, é isso que eu quero! Vamos em frente!" Apenas se levante em silêncio e dance comigo.
Mostre-me como você segue seus desejos mais profundos, descendo em espiral em direção à dor dentro da dor, e lhe mostrarei como eu me volto para dentro e me abro para fora para sentir o beijo do Mistério, doces lábios sobre os meus, todos os dias.
Não me diga que você quer encerrar o mundo inteiro no seu coração. Mostre-me como você evita cometer outra falta sem se desesperar quando sofre uma agressão e tem medo de não receber amor.
Conte-me uma história sobre quem você é, e veja quem eu sou nas histórias que estou vivendo. E juntos nos lembraremos que cada um de nós sempre tem uma escolha.
Não me diga que as coisas serão maravilhosas... um dia. Mostre-me que você é capaz de correr o risco de ficar completamente em paz, totalmente à vontade com a maneira como as coisas são neste exato momento, e também no momento seguinte, e no seguinte...
Já ouvi histórias demais sobre a audácia heróica. Conte-me como você desmorona quando esbarra no muro, o lugar que você não pode transpor pela força da sua vontade. O que conduz você para o outro lado desse muro, para a frágil beleza da sua condição humana?
E depois de mostrarmos um ao outro como definimos e mantivemos os limites claros e saudáveis que nos ajudam a viver lado a lado um com o outro, vamos correr o risco de lembrar que nunca deixamos de amar em silêncio aqueles que um dia amamos em voz alta.
Leve-me para os lugares do planeta que ensinam você a dançar, os lugares onde você pode correr o risco de deixar o mundo partir seu coração, e eu conduzirei você aos lugares onde a terra debaixo dos meus pés e as estrelas no céu fazem meu coração ficar inteiro de novo, e de novo.
Mostre-me como você cuida dos negócios sem deixar que eles determinem quem você é. Quando as crianças estão alimentadas mas as vozes internas e as externas gritam que os desejos da alma têm um preço alto demais, vamos lembrar um ao outro que o que importa não é o dinheiro.
Mostre-me como você oferece ao seu povo e ao mundo as histórias e as canções que você quer que os filhos de nossos filhos recordem, e eu revelarei a você como eu me empenho, não para mudar o mundo, mas para amá-lo.
Sente-se do meu lado e compartilhe comigo longos momentos de solidão, conhecendo tanto a nossa absoluta solitude quanto o nosso inegável pertencer. Dance comigo no silêncio e no som das pequenas palavras cotidianas, sem que eu me responsabilize no fim do dia por nenhum de nós dois.
E quando o som de todas as declarações das nossas mais sinceras intenções tiver desaparecido no vento, dance comigo na pausa infinita antes da grande inalação seguinte do alento que nos sopra a todos na existência, sem encher o vazio a partir de dentro ou de fora.
Não diga "Sim!". Pegue apenas a minha mão e dance comigo.
"Não me interessa saber como você ganha a vida. Quero saber o que mais deseja e se ousa sonhar em satisfazer os anseios do seu coração.
Não me interessa saber sua idade. Quero saber se você correria o risco de parecer tolo por amor, pelo seu sonho, pela aventura de estar vivo.
Não me interessa saber que planetas estão em quadratura com, sua lua. O que eu quero saber é se você já foi até o fundo de sua própria tristeza, se as traições da vida o enriqueceram ou se você se retraiu e se fechou, com medo de mais dor. Quero saber se você consegue conviver com a dor, a minha ou a sua, sem tentar escondê-la, disfarçá-la ou remediá-la.
Quero saber se você é capaz de conviver com a alegria, a minha ou a sua, de dançar com total abandono e deixar o êxtase penetrar até aponta dos seus dedos, sem nos advertir que sejamos cuidadosos, que sejamos realistas, que nos lembremos das limitações da condição humana.
Não me interessa se a história que você me conta é verdadeira. Quero saber se é capaz de desapontar o outro para se manter fiel a si mesmo. Se é capaz de suportar uma acusação de traição e não trair sua própria alma, ou ser infiel e, mesmo assim, ser digno de confiança. Quero saber se você é capaz de enxergar a beleza no dia-a-dia, ainda que ela não seja bonita, e fazer dela a fonte da sua vida.
Quero saber se você consegue viver com o fracasso, o seu e o meu, e ainda assim pôr-se de pé na beira do lago e gritar para o reflexo prateado da lua cheia: "Sim!"
Não me interessa saber onde você mora ou quanto dinheiro tem. Quero saber se, após uma noite de tristeza e desespero, exausto e ferido até os ossos, é capaz de fazer o que precisa ser feito para alimentar seus filhos.
Não me interessa quem você conhece ou como chegou até aqui. Quero saber se vai permanecer no centro do fogo comigo sem recuar.
Não me interessa onde, o que ou com quem estudou. Quero saber o que o sustenta, no seu íntimo, quando tudo mais desmorona.
Quero saber se é capaz de ficar só consigo mesmo e se nos momentos vazios realmente gosta da sua companhia."
A autora dos livros que considero os melhores que já li chama-se Oriah Mountain Dreamer. Canadense, tem dois livros publicados no Brasil, infelizmente esgotados: "O convite" e "A dança".
Estou lendo "The Call" em inglês. Muito mais profundo e espiritual, vem em resposta ao que eu preciso. Hoje, por sintonia, me deparo com uma meditação pela inocência, que compartilho aqui.
Sente-se em uma posição confortável, preferencialmente sentado mas relaxado. Inspire profundamente três vezes, levando o ar para sua barriga, permitindo que seu corpo se expanda com a inspiração e se contraia e se curve ao exalar. Envie a sua respiração para todas as partes do seu corpo - pés e pernas, mãos e braços, cabeça e pescoço - e permita que todo o stress, tensão, cansaço deixe seu corpo conforme você exala.
Respire normalmente e gentilmente traga a sua atenção para a respiração, permitindo que todos os pensamentos e sensações se dissolvam, que desapareçam da mesma forma que surgem, sem lutar contra ou se apegar a um pensamento ou sensação particular com sua atenção. Deixe que a respiração seja o centro do seu ser, no ponto em você onde não há movimento, apenas tranquilidade.
Neste lugar de profunda serenidade, permita que uma imagem sua apareça, lembrando-se de um momento em que você ofereceu algo a outra pessoa. Deixe que seja algo pequeno como segurar uma porta para alguem mais velho, ou oferecer consolo a uma criança que esfolou seu joelho. Pode ser um momento em que você compartilhou algo de si mesmo, como contar uma história de sua vida para outra pessoa. Pode ter sido um momento em que você criou beleza para outra pessoa pelo modo que ouviu ou como ofereceu algo - um alimento, um sorriso, uma palavra de encorajamento. Pode ter sido um momento em que você não quis receber algo em troca. Permita que o que quer que venha esteja ali sem julgamento da sua opinião sobre o resultado do que você ofereceu, sem analizar o grau em que o seu desejo de oferecer algo se misturou a outros motivos.
Sente-se com esta imagem, e sinta dentro dela uma linha do seu desejo genuino de oferecer algo ao mundo, ao próximo. Talvez você tenha desejado aliviar a dor do outro ou criar intimidade ou oferecer apoio. Talvez você tenha desejado acrescentar beleza a um momento com humor, intuição ou compaixão. Deixe que a linha de sua própria inocencia, seu desejo de aliviar o sofrimento e contribuir para o mundo com algo significativo revele-se a você.
Esteja com este senso de sua própria inocência, e deixe que isto te leve a outras instâncias em sua vida em que você atuou a partir do desejo de criar beleza ou oferecer consolo. Veja as diferentes formas que esta linha de inocencia se entrelaça com milhares de outras em suas escolhas. Permita que instantes em que você era uma criança venham até você. Permita que a realidade de sua própria divindade se revele para você. Esteja com esta divindade e os sentimentos que surgirem sem julgamento. Se você começar a analizar os intantes que surgirem, retorne sua atenção para sua respiração, deixando sua mente clara e aguarde por uma nova imagem.
1. Ando pela rua há um buraco profundo na calçada eu caio lá dentro estou perdido - sem esperança não foi culpa minha leva uma eternidade para sair.
2. Ando na mesma rua há um buraco profundo na calçada eu finjo que não o vejo eu caio de novo não posso acreditar estou aqui novamente mas não foi culpa minha após muito tempo consigo sair.
3. Ando na mesma rua há um buraco profundo na calçada eu vejo o buraco mesmo assim eu caio de novo - virou um hábito meus olhos estão abertos eu sei onde estou foi culpa minha saio imediatamente.
4. Ando na mesma rua há um buraco profundo na calçada eu contorno o buraco.
Dedicado pelo autor, Thiago de Melo, a Carlos Heitor Cony.
Artigo I Fica decretado que agora vale a verdade. agora vale a vida, e de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único: O homem, confiará no homem como um menino confia em outro menino.
Artigo V Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.
Artigo VI Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, uso do traje branco.
Artigo XI Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único: Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.
Artigo XIII Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.
Artigo Final Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.
Santiago do Chile, Abril de 1964
Uma versão mais popular, intensa pela leitura e pela musica, fraquinha pelas imagens enlatadas:
Eu faço minhas coisas, e você faz as suas. Eu não estou neste mundo para viver as suas expectativas.E você não está neste mundo para viver as minhas. Você é você, e eu sou eu, E, se por acaso, nós nos encontrarmos, será ótimo. Se não, nada se pode fazer.
Então, Almitra disse: “Fala-nos do amor.” E ele ergueu a fronte e olhou para a multidão, e um silêncio caiu sobre todos, e com uma voz forte, disse:
Quando o amor vos chamar, segui-o, Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados; E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe, Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos; E quando ele vos falar, acreditai nele, Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos Como o vento devasta o jardim. Pois, da mesma forma que o amor vos coroa, Assim ele vos crucifica. E da mesma forma que contribui para vosso crescimento, Trabalha para vossa queda. E da mesma forma que alcança vossa altura E acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol, Assim também desce até vossas raízes E as sacode no seu apego à terra. Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração. Ele vos debulha para expor vossa nudez. Ele vos peneira para libertar-vos das palhas. Ele vos mói até a extrema brancura. Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis. Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma No pão místico do banquete divino. Todas essas coisas, o amor operará em vós Para que conheçais os segredos de vossos corações E, com esse conhecimento, Vos convertais no pão místico do banquete divino. Todavia, se no vosso temor, Procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor, Então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez E abandonásseis a eira do amor, Para entrar num mundo sem estações, Onde rireis, mas não todos os vossos risos, E chorareis, mas não todas as vossas lágrimas. O amor nada dá senão de si próprio E nada recebe senão de si próprio. O amor não possui, nem se deixa possuir. Porque o amor basta-se a si mesmo. Quando um de vós ama, que não diga: “Deus está no meu coração”, Mas que diga antes: "Eu estou no coração de Deus”. E não imagineis que possais dirigir o curso do amor, Pois o amor, se vos achar dignos, Determinará ele próprio o vosso curso. O amor não tem outro desejo Senão o de atingir a sua plenitude. Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos, Sejam estes os vossos desejos: De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho Que canta sua melodia para a noite; De conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada; De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor E de sangrardes de boa vontade e com alegria; De acordardes na aurora com o coração alado E agradecerdes por um novo dia de amor; De descansardes ao meio-dia E meditardes sobre o êxtase do amor; De voltardes para casa à noite com gratidão; E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado, E nos lábios uma canção de bem-aventurança.